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Em Moçambique, como em vários outros
países de diferentes continentes, os “médicos tradicionais” ou “curandeiros”
assumem um papel central quer na prestação de cuidados de saúde, quer na
regulação da incerteza e dos problemas sociais dos seus utentes.1
Esses terapeutas são normalmente chamados tinyanga (sing. nyanga) no sul do
país e, de acordo com as teorias locais, devem os seus poderes curativos,
divinatórios e de eficácia ritual ao facto de serem possuídos por espíritos de
defuntos, que com eles formam uma simbiose profissional e ontológica (Honwana
2002).
Serão ainda estes espíritos que os forçarão a abraçar a profissão,
através de uma doença de chamamento que é, simultaneamente, uma declaração de
intenções por parte dessas entidades espirituais e uma ameaça de morte caso
recusem submeter-se-lhes.
No entanto, a partir do momento em que um deles inicia a sua formação,
orientada por um(a) nyanga experiente, a profissão passa a ser o fulcro da sua
existência, a que todos os restantes aspectos da vida se subordinam, e objecto
de um forte investimento emotivo, intelectual e valorativo.
A actividade e percurso profissional dos tinyanga aparenta, assim,
constituir uma forma de “vocação” imposta, mesmo se os próprios não recorrem a
essa noção quando equacionam o assunto. No entanto, a realidade observável é
bastante mais complexa e ambígua do que aquilo que essas duas palavras poderiam
conter, e isto quer a analisemos a partir dos conceitos e princípios
explicativos que são dominantes nesse contexto sócio-cultural, quer recorramos
àqueles que são património das ciências sociais.
Este texto parte, por isso, do desafio de verificar em que medida a
ideia de vocação é adequada e pertinente para compreender a relação dos
tinyanga com a sua actividade e de que forma pode ela ser útil para clarificar
as dinâmicas do chamamento e do seu exercício profissional.
Em Moçambique, como em vários outros países
de diferentes continentes, os “médicos tradicionais” ou “curandeiros” assumem
um papel central quer na prestação de cuidados de saúde, quer na regulação da
incerteza e dos problemas sociais dos seus utentes.1 Esses terapeutas são
normalmente chamados tinyanga (sing. nyanga) no sul do país e, de acordo com as
teorias locais, devem os seus poderes curativos, divinatórios e de eficácia
ritual ao facto de serem possuídos por espíritos de defuntos, que com eles
formam uma simbiose profissional e ontológica (Honwana 2002).
Serão ainda estes espíritos que os forçarão a abraçar a profissão,
através de uma doença de chamamento que é, simultaneamente, uma declaração de
intenções por parte dessas entidades espirituais e uma ameaça de morte caso
recusem submeter-se-lhes.
No entanto, a partir do momento em que um deles inicia a sua formação,
orientada por um(a) nyanga experiente, a profissão passa a ser o fulcro da sua
existência, a que todos os restantes aspectos da vida se subordinam, e objecto
de um forte investimento emotivo, intelectual e valorativo.
A actividade e percurso profissional dos tinyanga aparenta, assim,
constituir uma forma de “vocação” imposta, mesmo se os próprios não recorrem a
essa noção quando equacionam o assunto. No entanto, a realidade observável é
bastante mais complexa e ambígua do que aquilo que essas duas palavras poderiam
conter, e isto quer a analisemos a partir dos conceitos e princípios
explicativos que são dominantes nesse contexto sócio-cultural, quer recorramos
àqueles que são património das ciências sociais.
Este texto parte, por isso, do desafio de verificar em que medida a ideia
de vocação é adequada e pertinente para compreender a relação dos tinyanga com
a sua actividade e de que forma pode ela ser útil para clarificar as dinâmicas
do chamamento e do seu exercício profissional.
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