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Ser curandeiro em Moçambique: uma vocação imposta?
Escrito por Paulo Granjo   
23-Jul-2010

  Em Moçambique, como em vários outros países de diferentes continentes, os “médicos tradicionais” ou “curandeiros” assumem um papel central quer na prestação de cuidados de saúde, quer na regulação da incerteza e dos problemas sociais dos seus utentes.1
Esses terapeutas são normalmente chamados tinyanga (sing. nyanga) no sul do país e, de acordo com as teorias locais, devem os seus poderes curativos, divinatórios e de eficácia ritual ao facto de serem possuídos por espíritos de defuntos, que com eles formam uma simbiose profissional e ontológica (Honwana 2002).

  Serão ainda estes espíritos que os forçarão a abraçar a profissão, através de uma doença de chamamento que é, simultaneamente, uma declaração de intenções por parte dessas entidades espirituais e uma ameaça de morte caso recusem submeter-se-lhes.

  No entanto, a partir do momento em que um deles inicia a sua formação, orientada por um(a) nyanga experiente, a profissão passa a ser o fulcro da sua existência, a que todos os restantes aspectos da vida se subordinam, e objecto de um forte investimento emotivo, intelectual e valorativo.

  A actividade e percurso profissional dos tinyanga aparenta, assim, constituir uma forma de “vocação” imposta, mesmo se os próprios não recorrem a essa noção quando equacionam o assunto. No entanto, a realidade observável é bastante mais complexa e ambígua do que aquilo que essas duas palavras poderiam conter, e isto quer a analisemos a partir dos conceitos e princípios explicativos que são dominantes nesse contexto sócio-cultural, quer recorramos àqueles que são património das ciências sociais.

  Este texto parte, por isso, do desafio de verificar em que medida a ideia de vocação é adequada e pertinente para compreender a relação dos tinyanga com a sua actividade e de que forma pode ela ser útil para clarificar as dinâmicas do chamamento e do seu exercício profissional.

Em Moçambique, como em vários outros países de diferentes continentes, os “médicos tradicionais” ou “curandeiros” assumem um papel central quer na prestação de cuidados de saúde, quer na regulação da incerteza e dos problemas sociais dos seus utentes.1 Esses terapeutas são normalmente chamados tinyanga (sing. nyanga) no sul do país e, de acordo com as teorias locais, devem os seus poderes curativos, divinatórios e de eficácia ritual ao facto de serem possuídos por espíritos de defuntos, que com eles formam uma simbiose profissional e ontológica (Honwana 2002).
  Serão ainda estes espíritos que os forçarão a abraçar a profissão, através de uma doença de chamamento que é, simultaneamente, uma declaração de intenções por parte dessas entidades espirituais e uma ameaça de morte caso recusem submeter-se-lhes.

  No entanto, a partir do momento em que um deles inicia a sua formação, orientada por um(a) nyanga experiente, a profissão passa a ser o fulcro da sua existência, a que todos os restantes aspectos da vida se subordinam, e objecto de um forte investimento emotivo, intelectual e valorativo.

  A actividade e percurso profissional dos tinyanga aparenta, assim, constituir uma forma de “vocação” imposta, mesmo se os próprios não recorrem a essa noção quando equacionam o assunto. No entanto, a realidade observável é bastante mais complexa e ambígua do que aquilo que essas duas palavras poderiam conter, e isto quer a analisemos a partir dos conceitos e princípios explicativos que são dominantes nesse contexto sócio-cultural, quer recorramos àqueles que são património das ciências sociais.

  Este texto parte, por isso, do desafio de verificar em que medida a ideia de vocação é adequada e pertinente para compreender a relação dos tinyanga com a sua actividade e de que forma pode ela ser útil para clarificar as dinâmicas do chamamento e do seu exercício profissional.

Atualizado em ( 23-Jul-2010 )
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