Sobre Religião de matriz africana
Rosivalda Barreto
Fui convidada a escrever para o blog¹ em tela fiquei imaginando… sobre o que exatamente poderia escrever! Pensei! Sobre Religião de matriz africana. Por quê? Por mim mesma! Acredito que frente ao meu preconceito, a primeira batalha, jihad que deveria travar era com o meu interior, com o meu próprio preconceito, revisitando-o e resolvendo-o. O objetivo desse breve escrito, é destacar que o racismo e o preconceito, devem ser enfrentados para serem demolidos. Promover a descolonalidade do saber através de uma síntese do que sejam as raízes culturais de base africana imanente na sociedade brasileira, tomando nesse sentido a sério a história da África, dos/as africanos/as, afrodescendentes, devolvendo sua humanidade subtraída, a partir da colonização do continente africano pelos europeus, recordando que essa humanidade continua sendo desrespeitada até hoje. No caso desse texto desmistificar o candomblé do imaginário social como religião satânica.
A minha família é candomblecista. Possui um terreiro de ordem familiar, da nação ketu que se localiza em Camaçari – Bahia, num vilarejo chamado Parafuso. Parafuso [...] É um local [...] que no final do século XIX, quando Abrantes perdeu sua importância econômica com o desenvolvimento da Rede Ferroviária Federal, se tornou sede desse Município[1]. No final da década de 50, meu avô comprou esse imóvel e construiu o terreiro para abrigar os orixás de minha avó Iemanjá e tia Oxum. Nessa esteira, vieram os orixás dos meus tios, Obaluaiê e Ogum de Ronda.
O lugar é lindo, muito verde, muito mato, um rio encantador. Sabemos que na religião de matriz africana a natureza é fundamental. Sem mato não há orixá[2]. Enfim sem natureza não há candomblé. Podemos dizer que o exercício do respeito à natureza, é praticado por nossos ancestrais há séculos, muito antes de eclodir o movimento ecológico. Tive de silenciar a tudo isso na minha infância e principalmente na escola, porque a religião de matriz africana foi e é demonizada desde a invasão europeia no continente africano. E continua sendo alvo de perseguição, primeiro pela religião católica, islâmica e atualmente pelas evangélicas/pentecostais. Negros/as evangélicos contra negros/as candomblecistas.
Oralidade

ORALIDADE - Uma herança para se manter as tradições
Oralidade é a transmissão oral dos conhecimentos armazenados na memória humana. Antes do surgimento da escrita, todos os conhecimentos eram transmitidos oralmente. A memória auditiva e visual eram os únicos recursos de que dispunham as culturas orais para o armazenamento e a transmissão do conhecimento às futuras gerações. A inteligência estava intimamente relacionada a memória. Os anciões eram os mais sábios, pelo conhecimento acumulado.
Pierre Lévy faz uma distinção em "As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática” faz distinção entre a oralidade primária, onde a palavra, por ser o único canal de informação, é responsável pela gestão da memória social; e a oralidade secundária em que a palavra (falada) tem uma função complementar à da escrita (e posteriormente à dos meios eletrônicos), sendo utilizada basicamente para a comunicação cotidiana entre as pessoas."
Em muitas culturas, a identidade do grupo estava sob guarda de contadores de histórias, cantores e outros tipos de arautos, que na prática eram autenticamente os portadores da memória da comunidade. Este é o caso do papel desempenhado na África Ocidental pelos griots, sendo o relato mais famoso o dos feitos do rei Sundiata Keita, soberano do Império Mali.
Os grilhões da escravidão não congelaram a alma, nem paralisaram o pensamento dos Mandinga, Ioruba, Banto, Fanti, Axanti, Ewê-Fon, Akan e outros tantos povos africanos escravizados. É a hora de esquecer o esquecimento. A memória existe e há memórias que surgem em contos e relatos, em mitos e crenças, em toques e silêncios de tambores. Também no gesto, na dança e na ética do viver ou do morrer.
Batuque: uma religião afro-rio-grandense em oposição à cosmovisão cristã.
|
| Hits: 71
Entrevista especial com Norton Figueiredo Corrêa
Nascido no Rio Grande do Sul, o batuque, religião afro-brasileira de culto aos Orixás, encontrou no solo gaúcho um território receptivo, apesar do racismo e das importância social e política das religiões cristãs, especialmente da Igreja Católica. Sinal disso é que os deuses do batuque recebem polenta ou churrasco como oferendas, além de caldos com erva-mate, e vestem até bombacha.
Mas, para o Prof. Dr. Norton Figueiredo Corrêa, existe por trás disso uma enorme assimetria de poder social e cultural, especialmente entre as religiões cristãs e as afro-brasileiras. Em termos de cosmovisão, por exemplo, ele afirma que, "enquanto a sexualidade é condenada no catolicismo (e no céu também não existe sexo), os deuses afro-brasileiros namoram as deusas". E se o céu católico-cristão parece algo eternamente inerte, as representações referentes aos orixás "mostram-nos em movimento, guerreando, amando".
Nesta entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail, Corrêa defende que justamente os brancos que ocupam as posições de maior poder na sociedade gaúcha é que vão buscar o poder simbólico que creditam aos sacerdotes da comunidade religiosa afro-brasileira. Segundo ele, Borges de Medeiros (1863-1961), presidente do Estado do Rio Grande do Sul por mais de 25 anos, era cliente de um famoso e rico sacerdote africano. Por outro lado, Dom Vicente Scherer (1903-1996), cardeal e ex-arcebispo de Porto Alegre, manteve, por muitos anos, um ataque frontal às religiões afro, hoje manifestado pela Igreja Universal do Reino de Deus.
Norton Figueiredo Corrêa é sociólogo, graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestre em antropologia social pela mesma universidade e doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atualmente, é professor adjunto da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e do mestrado interdisciplinar Cultura e Sociedade da mesma universidade. É autor de "O Batuque do Rio Grande do Sul: Antropologia de uma religião afro-rio-grandense" (Ed. Cultura & Arte, 2006), já na sua segunda edição.
Confira a entrevista.
Read more: Batuque: uma religião afro-rio-grandense em oposição à cosmovisão cristã.
A Regra de Ossain

Ossain é cultuado pelas etnias Congo e Bantu, seu culto tem ampla propagação e antiguidade. Prova disso, é a tradição oral que reporta que, em 1418, alguns relatos afirmam que a dita viagem somente iniciou em 1421, um chinês foi consagrado Olori em território congolês. Isto foi comprovado recentemente, devido a um mapa apresentado pela China. O que confirma a tradição Bantu, generalizada oralmente também em Cuba, sobre a chegada de asiáticos em uma viagem circunavegação, feita pela China. Mais abaixo discorreremos sobre este fato.
Regra Ossain é um culto de orações, conjuros, canções e encantamentos. O sacrifício de animais é raro. A Regra* Ossain (da linhagem do Congo) está viva em Cuba, é praticada apenas no templo "Keiyo Eiyé Ori". Seus fiéis e sacerdotes pretendem sua divulgação, prática e preservação.
