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Oralidade
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- Categoria: Artigos
- Escrito por Rosany ti Yémònjá
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ORALIDADE - Uma herança para se manter as tradições
Oralidade é a transmissão oral dos conhecimentos armazenados na memória humana. Antes do surgimento da escrita, todos os conhecimentos eram transmitidos oralmente. A memória auditiva e visual eram os únicos recursos de que dispunham as culturas orais para o armazenamento e a transmissão do conhecimento às futuras gerações. A inteligência estava intimamente relacionada a memória. Os anciões eram os mais sábios, pelo conhecimento acumulado.
Pierre Lévy faz uma distinção em "As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática” faz distinção entre a oralidade primária, onde a palavra, por ser o único canal de informação, é responsável pela gestão da memória social; e a oralidade secundária em que a palavra (falada) tem uma função complementar à da escrita (e posteriormente à dos meios eletrônicos), sendo utilizada basicamente para a comunicação cotidiana entre as pessoas."
Em muitas culturas, a identidade do grupo estava sob guarda de contadores de histórias, cantores e outros tipos de arautos, que na prática eram autenticamente os portadores da memória da comunidade. Este é o caso do papel desempenhado na África Ocidental pelos griots, sendo o relato mais famoso o dos feitos do rei Sundiata Keita, soberano do Império Mali.
Os grilhões da escravidão não congelaram a alma, nem paralisaram o pensamento dos Mandinga, Ioruba, Banto, Fanti, Axanti, Ewê-Fon, Akan e outros tantos povos africanos escravizados. É a hora de esquecer o esquecimento. A memória existe e há memórias que surgem em contos e relatos, em mitos e crenças, em toques e silêncios de tambores. Também no gesto, na dança e na ética do viver ou do morrer.
OS CONTADORES DE HISTÓRIAS ou GRIOTS
“A tradição africana vive da palavra. São as palavras cantadas que ensinam, são as palavras contadas que criam os valores e motivam para o trabalho, para a luta ou para a festa; são palavras vivas na boca dos velhos contadores de histórias, recriando o mundo à medida da imaginação e da arte. Uma herança viva da ancestralidade”.
Através das histórias se conserva a sabedoria e o conhecimento através de gerações. A narração oral da história foi aspecto essencial para que se conservasse a tradição dos mitos e das lendas das culturas tribais e nativas.
Os contadores de história criam um vínculo, uma ponte entre os ensinamentos tradicionais e o momento presente, mantendo a herança da identidade que serve de suporte para as tradições culturais, étnicas e religiosas.
Há muito tempo na África, todas as comunidades e culturas tribais tinham seus contadores de histórias - homens, tradicionalmente; mas havia também mulheres. Os requisitos principais para ser um contador de histórias eram dedicar-se a conhecer as histórias de sua comunidade, dos seus ancestrais, da mitologia, da cosmologia e, naturalmente, ter dons espirituais e de oratória aceito pelos Anciões.
Todo contador de história na África não só tem que tornar o ato de contar histórias um hábito de diversão, mas também, através delas, ensinar as crianças e os jovens a aplicar os ensinamentos dessas histórias em sua própria vida e a perpetuar as tradições da oralidade.
A figura do griot tem uma enorme importância na conservação da palavra, da narração, do mito. Na prática, eles funcionam como escritores sem papel nem pena. Ortografam na oralidade aquilo que deve permanecer embutido na memória e no coração dos seus familiares e conterrâneos, no sentido de manter incrustada a identidade do seu ser e das suas raízes, fundamentada, em grande parte, no seu passado e nos seus predecessores.
Os griots são os guardiões, intérpretes e cantores da História oral de muitos povos africanos. Na língua mandinga são conhecidos como jali e na África Central como mbomvet. Todos eles possuem uma função social bastante semelhante e de grande relevância. Os griots cantam a história épica da África e os mitos dos diferentes povos, ou elogiam os méritos dos heróis e personagens do passado, geralmente acompanhados por instrumentos musicais, como a kora ou o xilofone.
No passado, os griots eram contratados por reis e príncipes para enaltecerem as suas qualidades com cânticos durante as cerimônias sociais da corte. Todavia, por vezes, também sabiam criticar os seus mecenas com fina ironia (que nem todos, certamente, compreenderiam…). Pelo papel social que desempenhavam na corte, os griots gozavam de grande prestígio entre a sociedade tradicional africana. Eram os responsáveis por manter a coesão grupal e fixar mitologias familiares numa sociedade marcada por relações de hierarquia, autoridade, etiqueta, deferência e referência.Também eram imensamente admirados e respeitados pelas suas capacidades musicais e poéticas, recebendo boa retribuição pelo seu trabalho. Mas também eram temidos, porque se pensava que dominavam certos poderes ocultos (para alguns, a inteligência e a mordacidade ainda hoje são “ciências” desconhecidas). Por estes motivos, quando morrem, não são sepultados, sendo o seu cadáver colocado dentro do tronco oco de uma árvore (Baobá) e coberto com ramos, para que seus poderes mágicos, suas histórias e canções continuem “brotando”, alimentando, nutrindo quem os consome.
Massa Makan Diabaté, um dos griots mais importantes do nosso tempo, compara o griot à kora, instrumento de 21 cordas: as sete primeiras tocam o passado; outras sete o presente; e as últimas sete o futuro. Por isso, o griot é testemunha do passado, cantor do presente e mensageiro do futuro.
A ORALIDADE NO ESQUEMA AFRICANO
Nenhum narrador transmite palavra por palavra o texto recebido através da tradição oral.
O estudo da oralidade na África negra tem acontecido desde perspectivas diferentes, conforme as disciplinas que se interessaram no tema. Os folcloristas viram, nestas formas de expressão cultural, sobrevivências de tradições desaparecidas. Para os etnologistas, é um reflexo da sociedade contemporânea e uma maneira de ensinar ou transmitir os valores de grupo. Os psiquiatras, seguindo Freud, explicam-nas como maneiras de expressar os problemas psicológicos.
A literatura oral africana é tudo isso ao mesmo tempo, mas não devemos esquecer que um mito, um conto, um provérbio, uma adivinhação é uma criação grupal, e deve ser vista assim, portanto, tem certas regras e para compreendê-la, é preciso analisar sua forma e seu conteúdo a partir de um enfoque multidimensional. O estudo deve ser feito seguindo as linhas essenciais que a definem.
Cada texto oferece vastas possibilidades de análise, que vinculam as obras de literatura oral com outros aspectos da mesma cultura. A língua, a base léxica e a sintaxe são fatores que, dada sua dimensão na oralidade tradicional, fazem com que a mesma seja uma forma de expressão mais rica que a língua correntemente falada. Na tradição oral, há fórmulas de abertura e de encerramento, modalidades, onomatopéias, diminutivos e aumentativos, etc.
Há gêneros fixos e livres; nos primeiros, o texto permanece inalterável (provérbios, enigmas, fórmulas, esconjuros) e, por isso, a língua é arcaica. Já nos gêneros livres, a formulação, de fato, pode mudar (contos, relatos, etc.)
Os sistemas narrativos anteriormente mencionados têm variáveis que dependem do narrador e de seu auditório. Alguns contos são mimados e formam um pré-teatro. Nenhum narrador transmite palavra por palavra o texto recebido por tradição oral; nesta liberdade reside justamente a riqueza e a diversidade da literatura falada. Algumas sociedades têm a tradição de relatar histórias em grupo. Por exemplo, narram contos entre duas ou mais pessoas, fazem mímica, cantam em coro, etc.
A gramática do conto envolve uma estrutura narrativa, por exemplo as seqüências nas que se deve repetir. A linguagem dos relatos oferece uma infinita variedade de vocabulário, segundo a sociedade emissora da obra. Afirma-se que não existe uma sociedade no mundo que não tenha, em seu acervo, criações como essas, que se transmitem na tradição cultural. Em algumas sociedades, estas formas se conservam e obedecem à necessidade de manter vivos certos elementos da cultura, que não se conservam de nenhuma outra maneira. É o caso dos relatos e das reconstruções genealógicas conservadas na África através dos séculos, associados aos feitos importantes (míticos em alguns casos) de heróis de cada etnia. Este é o patrimônio depositado nos Griots, esses portentosos historiadores orais Peuls do Sudão ocidental.
No vocabulário dos relatos, os atores: homens, animais, plantas, gênios, etc., ocupam seu lugar e possuem um simbolismo particular em cada sociedade. Estes elementos permitem a criação de um repertório de metáforas e metonímias. As ações e os gestos podem ser de compreensão universal, ou particular da sociedade em questão. Os acessórios do narrador (jóias, vestimenta, fantasia, etc.) também têm um valor simbólico.
Cada mito (muitos contos são restos de mitos) deve ser decodificado, pois nele há uma mensagem implícita. O relato se decodifica no decurso de sua repetição. Ao lado da mensagem implícita está a mensagem explícita, que não tem a mesma importância, pois não modifica a estrutura interna do texto. A função dos motivos explícitos é marcar o final do conto, do relato, ou de uma reconstrução genealógica.
A oralidade, portanto, transmite a mensagem de uma maneira indireta com uma linguagem codificada. Já o simbolismo, que é múltiplo nos contos, pode diminuir ou aumentar os conflitos interno de uma sociedade.
Este ensaio não é o espaço apropriado para aprofundar na literatura africana escrita, basta assinalar que os gêneros modernos tomam por base os tradicionais, não há nenhuma dúvida a respeito. E o principal é que projetam o mundo negro africano para além de suas fronteiras, tanto assim que, desde meados do século passado, o pensamento africano se difunde através do teatro com temas épicos, políticos, da música e da dança, exercendo sua influência na arte cênica do mundo todo. Além dos já mencionados, florescem os gêneros da poesia literária de combate e militante, o romance realista, o romance metafísico e alegórico, e muitos outros, nos quais a personalidade africana atinge níveis mundiais. Vale recordar que o reconhecimento da literatura africana remonta aos primeiros anos da ocupação européia no continente negro. Os missionários e os exploradores se referiram à literatura dos “negros” quando compreenderam as fábulas, as lendas históricas, os contos e tudo que rodeava a oralidade dos povos africanos. Na oralidade, os africanos conservaram uma fonte viva de suas culturas tradicionais.
Ao recuperarem a palavra, os novos países independentes, livres do peso do colonialismo, puderam reconstruir sua ancestralidade e delinear seus projetos de cultura nacional. Os “livros” da experiência milenar africana foram guardados na memória dos idosos.
"Em África, quando morre um ancião arde uma biblioteca, desaparece uma biblioteca inteira sem que as chamas acabem com o papel." Amadou Hampâté Bá²
Compilado por Rosany ti Yémònjá
¹Considera-se ancião como "aquele que conhece".
² Escritor, etnólogo, filósofo, historiador, poeta e contador. Ele foi um dos maiores pensadores da África do século XX, tendo recolhido inúmeras histórias e procurado incentivar e divulgar este conhecimento.
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