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A narrativa africana e o sentido comunitário
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- Categoria: Artigos
- Escrito por Francisco Noa
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foto de Otávio Raposo
O sentido comunitário na narrativa africana: o caso de Moçambique
A literatura, em geral, e a ficção, em particular devem ser sempre vistas como apreensões, ou tentativas de apreensão, de uma totalidade sem contornos facilmente delimitáveis e que, na falta de melhor qualificativo, chamamos realidade. O que acaba, de certo modo, por concorrer para que o texto incorpore, ainda que potencial e simbolicamente, aspectos essenciais dessa mesma realidade. Daí que, metafórica ou metonimicamente, o texto literário vai sempre emergir como representação ou recriação de dimensões determinadas da totalidade. Se quisermos, cada obra de ficção institui-se como utopia do todo, isto é, como fragmento de linguagens que encenam a própria totalidade.
Traduzindo de forma aguda a percepção desta dicotomia, o poeta e ensaísta venezuelano Rafael Fauquié (1993: 2), defende que o fragmentário seria o reflexo de algo que, de certo modo, as maioria dos escritores percebem, hoje, como a maior das aspirações: nomear a realidade. A realidade não pode, afinal, ser nomeada senão de forma fragmentada.
Na sua realização como representação do mundo, o que a linguagem, em geral, e a literatura, em particular, invariavelmente acaba por fazer é questionar a própria ideia de totalidade. A vida é, per si, uma totalidade ou uma difusa constelação de totalidades? Se aceitarmos a segunda possibilidade, a ficção afirmar-se-ia, quer do ponto de vista dos seus dispositivos constitutivos quer do sentido que projecta, enquanto uma expressão singular de uma ideia de totalidade
Dificilmente se pode contornar, em relação às artes africanas, em geral, e à literatura, em particular, o impacto e a apelo inspirador dos contextos em que ela surge e que se tornam objecto de reinvenção. Tal facto poderá explicar, em parte, o papel interventivo e messiânico de que se armam os escritores não só para celebrar o mundo que recriam, mas também para o questionar, para o tentar corrigir, mas nunca para o recusar, na sua totalidade.
Daí que o sentido comunitário que atravessa grande parte da narrativa moçambicana – afinal, a vocação da narrativa é a representação de totalidades – traduz uma espécie de nostalgia de uma herança existencial e patrimonial comum, uma espécie de paraíso perdido o que, em certo sentido, transforma em aspiração a reivindicação do papel da família como da própria comunidade em que as personagens evoluem.
No entanto, quer o pendor crítico quer as tonalizantes moralizantes que caracterizam o discurso literário desses autores inscreve-se no confronto desencadeado pelas transformações civilizacionais e culturais decorrentes da modernidade e do modo como ela formatou sensibilidades, racionalidades e padrões de vida. E é, pois, em contraposição às sociedades individualistas do mundo contemporâneo que, utópica e idilicamente, a sociedade comunitária, real ou imaginária, se institui como pano de fundo desta literatura.
Mesmo quando nos confrontamos com a singularização dos seres e da existência na narrativa, essa mesma individualização parece corresponder mais à fragmentação dos valores, das percepções, das instituições e da sociedade, em geral, do que propriamente à legitimação e consagração de qualquer perspectiva mais subjectiva que caracteriza o mundo e a narrativa ocidental.
Não é, pois, por acaso que a família, afinal tão antiga como a própria humanidade, enquanto microcosmos social e comunitário, está tão presente em qualquer uma das narrativas que escolhemos para esta reflexão. Se em «O totem» de Aldino Muianga se reconhece um incontornável sentido moralizador da narrativa, com indisfarçáveis apelos à salvaguarda dos valores, das tradições e dos costumes, em «Aconteceu em Saua-Saua» de Lília Momplé há uma denúncia e uma condenação a uma ordem política e social insustentável gerada, por exemplo, pela dominação colonial.
Por sua vez, tanto nos contos de Ungulani e de Mia Couto, respectivamente «O exorcismo» e «Saíde o Lata de Água», como no romance “Niketche” de Paulina Chiziane, o que prevalece é a constatação da degradação de um conjunto de valores que põem em causa a dignidade do ser humano como um todo, mas sempre indissociável de uma dimensão social, de uma dimensão colectiva.
Condição que tem necessariamente a ver com a visão, ou as visões do mundo que subjazem esta arte primordial de retenção do fluxo de existência nas suas inumeráveis realizações. Se a narrativa moderna traduz superiormente a fragmentação e a solidão fundamental do sujeito produto da modernidade, na arte de contar dos africanos, mesmo debaixo da influência dessa mesma modernidade, subsistem motivações que resgatam uma envolvente e plurívoca ideia de totalidade. Isto é, o ser humano representado mesmo na sua dimensão mais íntima e subjectiva surge sempre imerso no poderoso manto da totalidade social.
Por conseguinte, quer por força dos apelos das vivências e da(s) oralidade(s) de que se tece o quotidiano de onde surge, quer pelo ainda marcante sentido comunitário de existência que evoca, a narrativa africana é uma alegoria da forma como a literatura constrói a totalidade seja ela nostálgica ou utópica, seja ela o devir de todas as imprevisibilidades e de todas as provações.
E é aí onde a narrativa de vocação africana afirma a sua peculiaridade. Ora recriando e repensando modos de existir de um espaço vital onde o ético, o político, o cultural, o religioso e o social se dissolvem numa amálgama em constante transformação, ora reiventando a própria tradição de narrar adicionando-lhe elementos únicos e, por conseguinte, emblemáticos.
por Francisco Noa
Natural de Inhambane, Moç, 1962. Doutorado em literaturas africanas de língua portuguesa pela Universidade Nova de Lisboa. Professor de literatura e de retórica na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo e professor convidado dentro e fora do país.
Referências bibliográficas
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Fonte: buala.org

