Segunda, 21 Mai 2012

A força do Axé


 "A palavra axé tem muitos significados. Axé é força vital, energia, princípio da vida, força sagrada dos orixás. Axé é o nome que se dá às partes dos animais que contêm essas forças da natureza viva, que também estão nas folhas, sementes e nos frutos sagrados. Axé é bênção, cumprimento, votos de boa sorte e sinônimo de amém. Axé é poder. Axé é o conjunto material de objetos que representam os deuses quando estes são assentados; fixados nos seus altares particulares para serem cultuados. São as pedras (os otás) é os ferros dos orixás, suas representações materiais, símbolos de uma sacralidade tangível e imediata.

Axé é carisma; é sabedoria nas coisas-do-santo, é senioridade. Axé se tem, se usa, se gasta, se repõe, se acumula. Axé é origem, é a raiz que vem dos antepassados. Os grandes portadores de axé, que são as veneráveis mães e os veneráveis pais-de-santo, podem transmitir axé pela imposição das mãos; pela saliva; que; com a palavra sai da boca; pelo suor do rosto, que os velhos orixás em transe limpam de sua testa com as mãos e, carinhosamente, esfregam nas faces dos filhos prediletos.

Axé se ganha e se perde. "

Reginaldo Prandi

 

Na religião africana celebra-se a vida, tudo contém vida e está vivo. Todos os elementos, animados ou não, na cosmovisão africana, possuem energia vital. Essa força é o axé.
O axé traz, faz acontecer, possibilita todo o processo pois é inerente a realidade.
Os rituais, tidos e ditos simbólicos, revitalizam e transmitem o axé. Um pai ou uma mãe-de-santo são, antes de tudo, aqueles que conduzem, propiciam e unem pelo axé. Não são em absoluto pais e/ou mães do santo, mas no santo. De uma maneira simples, podemos afirmar que o são porque orientarão, ensinarão, conduzirão o filho na vida religiosa, tal e qual os pais biológicos na vida civil.

Nossa vida transborda de duas fontes. O mundo fisico onde detemos o poder da escolha e nos julgamos, ou não, capacitados para tal,  e, o mundo dos orixás, dos antepassados. Ambos interferem no nosso dia-a-dia. Concluímos então que a vida de um iniciado e, dos feitos, é a junção destas duas vertentes. Portanto, não raras vezes, pelas escolhas que fazemos, por atitudes que tomamos aleatoriamente, e, crentes de que seremos compreendidos e/ou poupados pelos orixás: somos os únicos responsáveis por determinadas situações que por ventura, ou desventura, venham a nos acontecer.
Os orixás recebem de nós a devoção, o culto e o respeito. E, deles, recebemos nós, a proteção e a força(axé).
Isso bastava numa sociedade clânica, onde o equilíbrio e a harmonia faziam parte da busca e da cultura. Alguém alijado de seu clã, dificilmente seria feliz, sentir-se-ia perdido. A família era de suma importância.

Hoje, a origem religiosa está supervalorizada, muito embora esta importância possa sofrer mudanças com o tempo. Uma raiz religiosa ora é mais valorizada e  ora menos, ora é tida como antiga e legítima, depois não mais. Para a importância contam também parâmetros de medição financeiros: quantos estão "bem de vida", quantos não. Há ainda os que são e buscam o reconhecimento através da mídia, ou de entidades governamentais, culturais, que classificam o que é ou não tradicional. Enfim, são varios os fatores que provocam uma verdadeira migração de adeptos entre e dentre, rituais e nações nos cultos afro-brasileiros. A exemplo das mudanças sociais, e no bojo delas pela aceitação que há dos cultos afro hoje, há uma mobilidade interna religiosa, sempre em busca de um prestígio religioso, uma ascenção. Prestígio este, oriundo ou não dos meios religiosos. Tudo no afã de um reconhecimento no mundo físico.

É aí que o axé deixa de ter sentido religioso e ganha o de status social. É importante ser do santo. Ser do santo, neste contexto, pode adicionar currículo. Prenuncia também uma profissionalização sacerdotal, uma unção, um dote especial. E ser oriundo de uma casa bem ranqueada coloca a criatura numa melhor posição. São os parametros profanos inseridos na religiosidade.
Na busca pelo reconhecimento, larga na frente quem tem as melhores: real ou atribuída formação, origem tradicional, origem mais antiga, legitimidade comprovada, aparente prosperidade financeira da casa, de filhos, de clientes e por aí à fora. Sabedoria de fundamento, até pela diversidade de nações e rituais, estão fora dos itens para avaliação. A pauta é a emergência.
A irmandade funciona como aliada e no trato social, notadamente nas mídias. Nelas todos são amigos, elogios respeitosos e /ou carinhosos tem ida e volta. Proliferam. No network, adeptos, iniciados e feitos travam conhecimento buscando reconhecimento, conhecimento ou refiliação. Acontecem também debates e, as vezes, embates sobre determinados temas, oportunidade para destaque. Alguns esquecem a ética e a moralidade. Discute-se o que é ou está certo, o que é ou está errado, como se houvesse uma hegemonia nos rituais e/ou, como  se fosse do conhecimento geral os diferenciais entre os rituais e as nações. E, para os que creem que a expansão do axé justifica, fortifica  e aumenta currículo, na concorrência acirrada vale tudo!  
Colocam, desta maneira, o ofício religioso em risco, ao formarem prestadores de serviço pessoais que, de tanto migrarem, ou mal fundamentados, nessa avalanche de informações, nem sabem mais onde estão... Meros magos, pela magia que os põe em destaque, são apenas mariposas em busca de um holofote que os coloque  em destaque.

Iniciadores e formadores de quem?
Onde fica a responsabilidade?
Se querem fazer do axé curriculum, que o façam. Mas primem pela formação com competência. Tenham ética, sejam exemplo. Não há melhor referência!
Respeitem.

Axé também se perde.

Rosany ti Yémònjá

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