Segunda, 21 Mai 2012

Ervas

Existe um velho provérbio nagô que diz:

"KOSI EWÉ

KOSI OMI

KOSI ORISA"

 

SEM A ERVA

SEM ÁGUA

NÃO HÁ ORISÁ

 

 Òsányìn é o orixá guardião de todos os segredos das folhas, raízes e cascas.

Òsányìn comanda as folhas, as medicinais e as litúrgicas. Sem ele nenhuma cerimônia é possível. Se não há ritual sem erva, isso faz dele um dos orixás de fundamental importância. Cada divindade tem as suas ervas e folhas particulares, mas só Òsányìn conhece profundamente o poder ou axé das folhas. É ele o detentor do axé - o poder - imprescindível até mesmo aos próprios deuses.

As folhas nascidas das árvores e as plantas constituem uma emanação direta do poder sobrenatural da terra fertilizada pela chuva (água-sêmem) e, com esse poder, a ação das folhas pode ser múltipla, para diversos fins. Devemos atentar ser o reino vegetal também portador dos três tipos de sangue, o branco, o vermelho e o preto. Sendo as ervas o primeiro contato ritualístico e/ ou litúrgico, isso por si só, explicaria sua real importância.

Para uma melhor compreensão do uso das ervas, devemos ter em mente que a cultura Jêje-Nagô sobrepôs-se sobre as demais, sendo muito assimilada, incorporada, na questão referente às ervas.

 

 No sistema de classificação dos vegetais, a condição para que uma folha seja masculina ou feminina é o seu formato, pois, na concepção Jêje-Nagô, a forma fálica (alongada) caracteriza o elemento masculino, em contrapartida, a forma uterina (arredondada) determina o elemento feminino. Essa convenção é adotada, tanto com relação às folhas, quanto aos jogos divinatórios que tiveram origem a partir do oráculo de Ifá, onde, dos dezesseis caurís usados, oito são de forma alongada e considerados masculinos, e os femininos são os oito restantes que possuem forma arredondada. "Por conseguinte, Macho/Fêmea formam um par de oposição básico no que se refere às espécies vegetais, e está diretamente relacionado ao Òrìsà" (Barros 1993:63). As folhas consideradas masculinas estão associadas aos Oborós ( orixás masculinos), bem como as femininas pertencem às Iabas (orixás femininos); todavia, eventualmente encontraremos algumas folhas femininas associadas aos Oborós e algumas masculinas atribuídas às Iabas, o que parece refletir uma bipolaridade característica de alguns orixás.

 

Nesta visão do mundo Jêje-Nagô, direito/masculino/positivo são opostos a esquerdo/feminino/negativo, ou seja, o masculino é positivo e se posiciona do lado direito, enquanto o feminino é negativo e se posiciona do lado esquerdo. Neste contexto os compartimentos que contêm as ewé inón (folhas do fogo) e ewé afééfé (folhas do ar) estão associadas ao masculino, elementos fecundantes, enquanto que as ewé omi (folhas da água) e as ewé ilè (folhas da terra) se ligam ao feminino, elementos fecundáveis.

Ao determinar que as folhas são separadas por pares opostos:gún (de excitação) Xèrò (de calma), ewé apa otun (folhas da direita) X ewé apa osi (folhas da esquerda), os Jêje-Nagô tomam como modelo um sistema da classificação baseada em posições binárias. Todavia, essa não é uma condição sine qua non quando analisamos mais detalhadamente a utilização dos vegetais, pois percebemos que algumas folhas positivas se relacionam com o lado esquerdo ou feminino e vice-versa, daí encontrarmos folhas femininas usadas com fins positivos, e folhas masculinas consideradas negativas. Verger (1995:25) cita, por exemplo, "que entre as folhas há quatro conhecidas como (...) as quatro folhas masculinas ( por seu trabalho maléfico) ...; e quatro tidas como antídotos..."Entre estas últimas ele inclui o òdúndún (Kalanchoe crenata), que é uma folha feminina, porém positiva, o que nos faz crer que as diversas condições binárias não interagem de modo rígido entre si, pois, como vimos, uma folha masculina pode estar situada junto aos elementos da esquerda por ser considerada negativa.

 

Barros (1993:60), estudando essas classificações, verificou que:  "Os vegetais estão dispostos em quatro compartimentos-base diretamente relacionados aos quatro elementos; as ewé afééfé - folhas de ar    ( vento); as ewé inón as ewé omi, - folha de água; e as Ilé ou ewé igbó - folhas da terra ou floresta.

Genericamente, vamos encontrar Exu, Oyá e Xangô participando do compartimento Fogo; Ogun,  Odé, Ossain e Xapanã ligados ao elemento Terra; Iemanjá, Oxum, Obá, Nanã  associadas as Águas, e Oxalá e Oyá ao Ar. Todavia, ao particularizarmos veremos que alguns Òrìsàs como considerados "Meta-Meta", estarão vinculados a mais de um desses compartimentos.

Òsányìn, por ser o dono dos vegetais, automaticamente, está ligado a todos os elementos da natureza; todavia, seu compartimento principal é o Terra, representado pelas florestas onde nasceram todos os vegetais.

Quando utilizamos ervas nos rituais de iniciação ou nos trabalhos litúrgicos, estas podem ser classificadas como èrò (mièró) que têm a função de abrandar o transe, apaziguar o orixá ou acalmar o iniciado. Contrariamente, as ervas consideradas gún servem para facilitar a possessão e excitar o orixá.

 

Vale salientar que hoje as plantas utilizadas nos rituais são de variadas procedências. Encontramos plantas americanas, asiáticas, africanas, européias e cosmopolitas.

Mª Thereza Camargo, em pesquisa , para a quantificação das plantas quanto a sua origem, considerou e selecionou apenas aquelas que se repetiam nas 5 coleções mencionadas, a saber:

1- as plantas constantes da  coleção particular dela mesma, coletadas em pesquisas de campo em candomblés e umbandas em São Paulo;

2- as plantas usadas em umbanda do Rio de Janeiro, pesquisa de Rejan Rodrigues Guedes e outros em 1985;

3- as plantas empregadas nos xangôs do Recife, pesquisa de Ulysses Paulino Albuquerque, em 1997;

4- as plantas empregadas nas casas de culto jêje-nagô, pesquisa de Flávio Pessoa de Barros, em 1983;

5- as plantas usadas na África Iorubá, relacionadas por Pierre Verger em  Ewe – O uso das plantas na sociedade ioruba.

 

A quantificação resultou no seguinte: 


Dentre as 21 espécies americanas, estão: olho-de-cabra (Abrus precatorius),carrapicho (Acanthospermum hispidum), mentruz (Ageratum conizoides), bredo (Amarantus viridis), urucum (Bixa orellana), erva-tostão (Boerhavia difusa), mamão (Carica papaya), mastruz (Chenopodium ambrosioides), pitangueira (Eugenia uniflora), algodão (Gossipium barbadense), pinhão-roxo (Jatropha curcas, Jatropha gossypiifolia), sensitiva (Mimosa pudica), bonina (Mirabilis jalapa), língua-de-sapo (Peperômia pellucida), guiné (Petiveria alliaceae), goiaba (Psidium guajava), vassourinha (Scoparia dulcis), malva-branca (Sida rhombifolia), milho (Zea mays). jurema, tabaco, mulungu, manacá, entre outras.

Dentre as 13 asiáticas, estão:  alho (Allium sativum), cebola (Allium cepa), picão (Bidens pilosa), maconha (Cannabis sativa), capim-santo (Cymbopogon ciratus), crista-de-galo (Heliotropium indicum), manga (Mangifera indica), tamarindo (Tamarindus indica), jaqueira (Artocarpus integrifolia),  melão-de-são~caetano (Momordia charantia), cajazeira (Spondias mombin), mamona (Ricinus comunis), tamarindo (Tamarindus indica). 

Dentre as 12 espécies africanas, estão: feijão-guandu (Cajanus cajá), lágrima-de-nossa-senhora (Coix lacryma-jobi), obi (Cola acuminata), xique-xique, maracá (Crotalaria retusa), peregun (Dracena fragrans), erva-botão (Eclipta guyneensis), orogbo (Garcinia kola), palma (Gladiolus x portulanos), ataré (Xilopia aethiopica) dendê (Elaeis guyneensi), pimenta-de-guiné (Xilopia aethiopica) 

Dentre as 3 cosmopolitas, estão: capim-de-burro (Cynodon dactylon (L.Pers)., carrapicho-do-beiço de boi, amor-do-campo (Desmodium adscendens DC.), erva-de-santa-luzia (Pistia stratiotes L.)

Dentre as 2 européias estão: beldorega (Portulaca oleraceae L.), alfazema (Hyptis pectinata Poit.)

 

Compilado por Rosany ti Yémònjá

 

Fontes:

ALBUQUERQUE, Ulysses Paulino de (1994) “Uso de plantas e a concepção de doença e cura nos cultos afro-brasileiros”In: Rev. Ciência & Trópico v.22, n.2: 197-210 Recife

BASTIDE, Roger (1973) Estudos afro-brasileiros. Perspectiva, São Paulo.

VERGER, P. F. (1995) Ewe. Uso das plantas na sociedade iorubá Companhia das Letras, São Paulo.

CAMARGO, Maria Thereza Lemos de Arruda. A Etnobotânica e as plantas  rituais afro-brasileiras. In: Faraimará, o caçador traz alegria: Mãe Stella,  60 anos de iniciação. (org.) Cléo Martins e Raul Lody, Rio de Janeiro,  Pallas, 2000.

    Outras informações colhidas na internet e, ainda outras, escutadas na aprendizagem, na prática religiosa quando em iniciação.

 

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